Projeto Água Subterrânea no
Nordeste do Brasil
Modelamento Matemático da Área de
Recarga do Aqüífero Açu,
Rio Grande do Norte
Relatório
Final
O que mais caracteriza a
paisagem do Nordeste do Brasil é a semi-aridez, já que em 1 milhão de
km2 do território a água é um bem natural escasso. Para
aumentar as dificuldades da região, 85% da área encontra-se sobre rochas
cristalinas impermeáveis, onde a água subterrânea de má qualidade
encontra-se nas fraturas das rochas. Associado à escassez de água,
ocorre o problema da falta de garantia de oferta hídrica, uma vez que os
rios não são perenes no semi-árido e ocorrem os fenômenos das secas.
Em muitas áreas do território do Estado do Rio Grande do Norte a água
é um bem natural escasso.
A intensa exploração do
Aquífero Açu em Mossoró está causando o rebaixamento excessivo do
nível potenciométrico e ocasionando eventuais perdas dos poços
tubulares. Esta situação preocupante do sistema de captação dos
recursos hídricos subterrâneos, aliado à pouca disponibilidade de água
superficial, tem causado preocupação nos profissionais da CAERN
(Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte) e da SERHID-RN
(Secretaria de Recursos Hídricos do Rio Grande do Norte) em relação ao
futuro do sistema de captação das águas subterrâneas.
Neste contexto, a área de
afloramento do Aquífero Açu apresenta um potencial hídrico que ainda
não foi totalmente explorado e que poderia auxiliar no desenvolvimento da
região, causando uma melhoria na qualidade de vida da população local.
Existem diversos poços tubulares nos aluviões locais e também cacimbas,
no entanto, por vezes a água retirada possui alta salinidade.
O trabalho apresentado
neste relatório enfoca a área de afloramento do Aquífero Açu e avalia
a disponibilidade hídrica sustentável deste aquífero.
A região de estudo do
projeto compreende a área entre a divisa com o Estado do Ceará (borda
oeste), o limite leste da Bacia Hidrográfica do Rio Apodi /Mossoró
(borda leste), a linha passando por Governador Dix-Sept Rosado ao norte
(borda norte) e a linha ligando as cidades de Carnaúbas e Paraú (borda
sul) totalizando uma área de aproximadamente 2.800 km2 (100km
x 28km) (vide Figura
1). Os principais municípios nesta área são: Apodi e Upanema
(vide Figura 2).
A CAERN pode ser
considerada como sendo o maior usuário do aquífero Açu, tendo mantido
um controle da operação de seus poços e possuindo a maioria das
informações disponíveis. Atualmente a CAERN tem atuado, através de 5
sedes de municípios e várias comunidades na região de afloramento do
aquífero Açu, atendendo a aproximadamente 50.000 habitantes. Em termos
de perspectivas imediatas está previsto o abastecimento de mais duas
sedes de município localizados no cristalino (Itaú e Tabolero).
Existe uma certa carência
de um mecanismo eficiente de apoio à decisões sobre a locação e
sustentabilidade dos poços e que será fornecida com os resultados e
metodologia desenvolvidos no presente estudo.
As principais atividades
econômicas na região da Bacia Potiguar são a extração de petróleo, a
agroindústria e a extração de sal. A bacia Potiguar é considerada
atualmente o maior campo produtor de petróleo em terras emersas do
Brasil. A agroindústria é baseada na produção de polpas e sucos de
frutas (caju, acerola, graviola, melão, manga, etc.) e de castanha de
caju, destinada principalmente ao mercado externo. Estas atividades
desenvolvem-se em áreas irrigadas através da captação de água
subterrânea. Existem áreas que poderiam desenvolver atividades
agrícolas caso houvesse água disponível.
De acordo com o contexto
acima exposto foram, primeiramente, organizadas todas informações
existentes sobre a área de estudo e desenvolvido o modelo conceitual
preliminar para a região.
Depois foi feita a
organização dos dados cadastrais num banco de dados relacional (em
Microsoft-Acess) e que foram posteriormente analisados e interpretados num
Sistema de Informações Geográficas (SIG).
Uma vez feita esta
organização e após a visualização dos dados, foi desenvolvido o
modelo hidrogeológico conceitual final da área de interesse, que serviu
de base para a modelação matemática propriamente dita. Os dados
cadastrados foram importados para o programa Visual MODFLOW 3.0 (WHI) e
cenários de fluxo da água subterrânea foram simulados. O programa
Visual MODFLOW 3.0, pela sua eficiência, versatilidade e facilidade de
uso, é reconhecido internacionalmente como padrão em modelação
matemática, sendo utilizado por diversas organizações, incluindo o
Serviço Geológico Americano e a U.S.EPA.
Os principais objetivos
do projeto foram:
-
Treinar
profissionais brasileiros na utilização de ferramentas de GIS e
modelamento de águas subterrâneas utilizando o Aquífero Açu como
exemplo. .
-
Criar uma ferramenta de
entrada, edição e visualização de informações hidrogeológicas e
de operação dos poços.
-
Criar um modelo para
gestão do aquífero e tomada de decisões para a área de afloramento
do aquífero Açu.
-
Estimar recursos hídricos
disponíveis em quantidade e qualidade suficientes na região de
afloramento do aquífero Açu.
-
Elaborar um estudo do
potencial hídrico do aquífero Açu em suas diferentes partes.
-
Implantar uma rotina de
monitoramento de níveis.
Os
principais benefícios
do estudo serão portanto:
-
Aumentar a qualidade de
vida da população local e prover acesso a fontes seguras de água.
-
Disponibilidade e fácil
acesso à informações hidrogeológicas da região de afloramento
do aquífero Açu.
-
Mapas delineando as áreas
mais produtivas do aquífero Açu em sua área de afloramento para
planejamento futuro.
-
Gerenciamento dos poços
atuais evitando interferência de poços e super explotação.
-
Estabelecimento de uma
ferramenta de previsão de comportamento futuro do aquífero.
-
Aumento da compreensão dos
mecanismos de fluxo no aquífero e suas interrelações com outras
formações aquíferas, aluviões e corpos de água superficiais,
servindo de subsídio para medidas que permitam diminuir a
ocorrência de águas salinas.
O principal objetivo do projeto foi transferir
tecnologia e know-how canadense para as organizações brasileiras
envolvidas no gerenciamento dos recursos hídricos do Estado do Rio
Grande do Norte e para instituições federais e estaduais envolvidos em
atividades similares nos dois outros estados do PROASNE (Ceará e
Pernambuco).
Os serviços executados baseiam-se em duas
premissas principais. A primeira é de que ao final dos trabalhos fosse
elaborado um modelo de gerenciamento dos recursos hídricos do Aquífero
Açu para as autoridades envolvidas. A segunda é a transferência de
know-how e tecnologia em gerenciamento de recursos hídricos para as
instituições dos três estados em que o PROASNE atua (Rio Grande do
Norte, Pernambuco e Ceará). A
Figura 3 mostra o
fluxograma dos trabalhos realizados.
O projeto teve duração de 12 meses tendo
sido desenvolvido em cinco fases:
-
Contato com Parceiros Brasileiros
-
Elaboração do Plano de Trabalho Detalhado
-
Execução do Plano de Trabalho
-
Curso de Modelamento de Águas Subterrâneas
-
Apresentação dos Resultados do Projeto
As etapas do Plano de Trabalho executadas
foram:
-
Revisão das informações existentes.
-
Criação de um sistema de informações
geográficas com o programa MapInfo (MapInfo Corporation).
-
Interpretação das informações disponíveis
utilizando o banco de dados do SIG implantado. Uma parte importante
desta tarefa foi a interpretação de seções geológicas criadas
no SIG.
-
Elaboração do Modelo Conceitual da área de
estudo.
-
Construção do Modelo Numérico de Fluxo com o
programa Visual Modflow 3.0 (Waterloo Hydrogeologic Inc.).
-
Avaliação da Sensibilidade do Modelo de Fluxo.
Foram avaliadas as influências da recarga, condutividade
hidráulica, profundidade do embasamento cristalino, porosidade e
condição de contorno General Head Boundary
-
Simulação de Cenários Futuros. Os cenários
futuros avaliados foram: situação atual, ampliação do número de
poços de bombeamento instalados e a influência da construção e
operação dos reservatórios de Umari e Santa Cruz do Apodi.
O presente relatório
descreve a metodologia e analisa os resultados obtidos neste estudo.
Nesta
etapa do projeto foi efetuado um levantamento bibliográfico buscando o
maior número de informações referentes a hidrogeologia, geologia e
hidrologia da região da área de estudo. Visando o conhecimento do
subsolo e o desenvolvimento do modelo conceitual, foram pesquisadas as
informações de poços atualmente em exploração e inativos, que
estão cadastrados junto aos órgãos competentes. Tanto a CAERN, a
SERHID-RN, a UFRN e a CPRM forneceram informações importantes para o
desenvolvimento do projeto. A WHI agradece a efetiva participação e
amplo apoio prestados por estas instituições.
A
Tabela 1 lista as principais
referências bibliográficas e bancos de dados consultados em ordem
cronológica.
O
relatório “Estudo
Hidrogeológico Regional Detalhado do Estado do Rio Grande do Norte –
Relatório número 15 795 – Volume 1” do IPT trata tanto de aspectos
gerais da bacia Potiguar, como clima, geologia, hidrogeologia, bem como
de um modelo númerico.
O trabalho “A Explotação do Aquífero Açu na Região de Mossoró –
RN – Caracterização da Situação Atual e Perspectivas de
Atendimento da Demanda Futura” trata da exploração do Aquífero Açu
na região de Mossoró, RN, e faz uma avaliação das constantes
hidrodinâmicas de poços da CAERN e MAISA na área. Neste trabalho as
transmissividades da Formação Açu e aspectos ligados à drenança,
que ocorre da Formação Jandaíra para a Formação Açu são
abordados. O mapa potenciométrico elaborado neste trabalho foi
utilizado para a definição da condição de contorno ao norte do
modelo numérico de fluxo construído neste estudo.
O “Plano Estadual de Recursos Hídricos do Rio Grande do Norte – Os
Recursos Hídricos Subterrâneos – Caracterização Hidrogeológica
dos Aquíferos do Rio Grande do Norte” serviu de referência tanto
para a avaliação da disponibilidade hídrica da região como para a
caracterização hidroquímica das águas do aquífero Açu.
O trabalho “Estrutura Geológica do Aquífero Açu na Borda Sul da Bacia
Potiguar Entre Apodi e Upanema, Rio Grande do Norte – Relatório
Técnico Parcial do Projeto “Recursos Hídricos Subterrâneos da
Formação Açu Aflorante na Borda Sul da Bacia Potiguar, RN, Brasil,”
que foi executado através de análise estrutural e geofísica, serviu
de base na interpretação da geometria do sistema aquífero, permitindo
definir quais regiões foram mais propícias ao desenvolvimento de
estruturas do tipo graben e horst. Estas definições
foram importantes na definição da base do modelo de fluxo do aquífero
Açu.
No
banco de dados da SERHID, foram avaliadas informações de um número
superior a 1000 poços existentes no Rio Grande do Norte. Neste banco
podem ser encontrados poços construídos desde a década de 50 até os
dias atuais. Na avaliação prévia, muitos poços cadastrados puderam
fornecer informações importantes para o estudo. A base para a
execução do projeto foi uma listagem de 429 poços existentes
principalmente na área de afloramento da Formação Açu. Alguns destes
poços encontram-se localizados na área de afloramento da Formação
Jandaíra.
As
informações obtidas sobre os poços do cadastro do Banco de Dados e
dos trabalhos bibliográficos, foram previamente avaliadas, e as
informações relevantes incorporadas ao presente trabalho.
A
localização dos 429 poços pode ser verificada na Figura
4 (Figura 4 em pdf)
Os
429 poços foram avaliados para que não ocorresse uma repetição nas
informações a serem utilizadas no trabalho. A Tabela
2 apresenta os poços selecionados para a elaboração do
trabalho. Nesta tabela podem ser observadas as identificações,
localidades, proprietário, coordenadas UTM, cotas topográficas,
perfurador, data da perfuração, profundidades, diâmetro do furo,
perda do aquífero, data da medição dos parâmetros hidráulicos,
nível estático e dinâmico, vazão, coeficiente de perda, vazão
computada no registro após um dia, bomba utilizada e condutividade
elétrica medidos em cada poço.
A
maioria dos poços levantados pertence à CAERN. Há na região um
grande número de poços particulares não cadastrados, que não
apresentam descrição de ensaios ou de suas características. No
entanto, acredita-se que o volume de água extraído seja desprezível
face ao volume de água bombeado pelos poços municipais.
Na
Figura 5 pode ser
observado o organograma do tratamento dos dados disponíveis.
As informações sobre os níveis d’água existentes foram transferidos
para o banco de dados em formato MICROSOFT ACESS compatíveis com o SIG
(MapInfo). Após a entrada de todos dados necessários, obedecendo o
formato do banco de dados, foi efetuada uma checagem da qualidade dos
mesmos. Nesta etapa, os dados foram plotados na forma de mapas para
serem checadas as coordenadas de interesse. Em paralelo, os valores das
cotas topográficas foram interpolados para ressaltar/eliminar erros
grosseiros existentes nos dados.
O banco de dados final foi criado através da fusão dos bancos de dados
existentes na SERHID e tabelas fornecidas pela CAERN/UFRN. Foi efetuada
a entrada manual de dados de vários poços onde não existiam registros
digitais.
O
banco de dados do SIG (Sistema de Informações Geográficas) é uma
forma adequada de armazenar dados de topografia, águas superficiais,
águas subterrâneas e hidroestratigrafia. Este banco de dados foi
utilizado na etapa de construção do modelo conceitual e numérico. O
SIG foi aplicado para gerar seções litológicas e também para
extrapolar superfícies topográficas e potenciométricas em locais onde
havia ausência de dados.
Após
a entrada dos dados no banco de dados do SIG, as camadas do modelo
conceitual foram criadas através da utilização do programa CSMapper
da WHI. Os dados de perfuração e condutividade hidráulica foram
manipulados no banco de dados SIG para produzir zonas de condutividade
hidráulicas para o sistema aquífero da região considerada. Os dados
de nível d’água foram convertidos para o ambiente SIG e depois
importados para o modelo para serem utilizados como elementos de
calibração.
A interpretação derivada da análise por seção
hidroestratigráfica foi também armazenada digitalmente em um banco de
dados e subsequentemente utilizada para gerar as superfícies do modelo
numérico. Os limites tanto das unidades do Aquífero Açu como demais
partes do sistema aquífero foram registrados e cadastrados no banco.
Os dados deste banco foram então importados para o VisualMODFLOW-3D
Explorer para proporcionar algumas interpolações e visualizações
preliminares das camadas do modelo numérico.
As
cotas das camadas do modelo foram interpoladas utilizando-se dados de
perfuração. Em função da natureza das camadas hidroestratigráficas
do Aquífero Açu e da disponibilidade dos dados de perfuração, esta
técnica pode ser aplicada de forma consistente. Em algumas regiões, no
entanto, foi necessária a criação de pontos auxiliares para aumentar
a plausibilidade das interpolações. De forma similar, os valores de
condutividade hidráulica do Aquífero Açu e demais unidades aquíferas
foram importados para o modelo como superfícies interpoladas.
A Krigagem, com modelo linear, foi o método de
interpolação utilizado para os dados de condutividade hidráulica.
No
caso do algumas unidades do sistema aquífero, a qualidade dos dados foi
bastante limitada. Este fato ocorreu porque os dados das descrições
normalmente realizadas no ato da perfuração às vezes não permitem
uma boa interpretação em função da natureza da formação
heterogênea e altamente variável.
O domínio da Bacia Potiguar é reconhecido sob a denominação de
Chapada do Apodi. Trata-se de uma superfície suavemente ondulada,
erodida durante o Plioceno, sobre uma sequência sedimentar que mergulha
em direção ao oceano. A Chapada do Apodi encontra-se limitada a oeste
e ao sul, por uma cuesta nítida que se desenvolve desde a Serra Dantas,
no extremo noroeste, dirigindo-se para sul ao longo da planície aluvial
do rio Jaguaribe e encurvando-se para leste, até as imediações de
Apodi, atingindo Upanema. Para leste, essa cuesta encontra-se cada vez
mais aplainada, tornando-se completamente obliterada na faixa oriental
do vale do rio Açu (vide Figura 6).
A topografia da região é caracterizada por um terreno uniforme, com
variações de cotas pouco acentuadas. Junto à costa os valores das
cotas topográficas variam entre 10 a 20 metros, ascendendo em média
para o interior até valores de 60 metros na porção leste e 100 metros
na porção oeste. Esse relevo monótono possui alguns vales abertos, de
direção principal NNE-SSW, correspondendo à lineamentos estruturais
do embasamento cristalino (vales dos rios Apodi-Mossoró e Piranhas
Açu) e vales de menor expressão, com orientação aproximada N-S.
Estes vales de menor expressão às vezes cruzam as estruturas regionais
de maneira transversal.
As principais feições de relevo da região são a Chapada do Apodi,
situada no limite entre os Estados do Rio Grande do Norte e Ceará e
sustentada pelos calcários da Formação Jandaíra. A Serra do Carmo e
a Serra do Mel, situadas a leste de Mossoró, são formadas pelos
sedimentos do Grupo Barreiras. A Chapada do Apodi possui elevações que
chegam a atingir 151 metros, ao passo que as cotas máximas da Serra do
Carmo e da Serra do Mel chegam a valores de 271 metros.
Como feições topográficas de menor expressão podem ser citados a
Serra de Mossoró e a Serra do Mangue Seco ambas sustentadas também por
sedimentos do Grupo Barreiras. Outras elevações dignas de nota são:
Serra Preta, situada a nordeste de Pedro Avelino e constituída por
basaltos (cota máxima de 228 metros) e a Serra Dantas, situada no
limite dos Estados do Rio Grande do Norte e Ceará e constituída de
quartzitos (cota máxima entre 186 e 232 metros).
Na Figura 7 pode ser
observada a topografia da área de estudo. Nota-se que os valores
oscilam entre 30 e 300 metros, sendobem nítida a localização dos
vales do rio Apodi e do rio do Carmo. Na elaboração do mapa
topográfico foram utilizados os mapas topográfícos do IBGE e um
modelo numérico do terreno, elaborado a partir de pares de imagens de
satélite.
O texto a seguir visa mostrar apenas em linhas gerais, as
características médias que influenciam o contexto geral dos recursos
hídricos da área compreendida entre Apodi e Upanema. A localização
geográfica da Bacia Potiguar, próxima do equador terrestre, faz com
que o clima seja quente. A topografia aplainada, típica de chapada, a
sua proximidade ao oceano e a pluviosidade de intensidade irregular,
fazem com que as características climáticas tenham uma influência
marcante no regime de alimentação dos aquíferos, tanto através da
infiltração de águas pluviais, como através da infiltração de
águas de rios.
As chuvas do Rio Grande do Norte possuem uma grande variação em sua
distribuição espacial e temporal.
O mapa de isoietas mostra valores médios de 700 mm/ano na área de
estudo para o período de 1936-1995 (vide Figura
8). A média geral para todo o Estado do Rio Grande do Norte é
de 633 mm/ano no mesmo período. As Tabelas 3,
4, 5
e 6 mostram as
medições pluviométricas das estações meteorológicas de Caraúbas,
Gov. Dix-Sept Rosado, Apodi e Upanema respectivamente.
O regime pluviométrico anual mostra uma estação chuvosa e uma
estação seca, bem distintas. Na área de estudo o período chuvoso vai
de fevereiro até maio. A estiagem ocorre nos meses de outubro e
novembro, podendo no entanto, atingir 7 a 8 meses.
A umidade relativa do ar média anual varia de 60% à 80%. A Tabela
7 mostra as normais de umidade relativa das diversas estações
do Rio Grande do Norte.
O potencial de evaporação é bastante elevado podendo chegar a 3000
mm/ano quando ocorre a conjugação de altas temperaturas e baixa
umidade relativa. As Tabelas 8
e 9 mostram respectivamente
os valores de evaporação em tanque tipo “A” e “Tubo Piche” das
estações de medição no Rio Grande do Norte. Em Apodi os valores
médios são de 3006 mm/ano e 2254 mm/ano, respectivamente. Devido a
esta alta evaporação o volume de água de chuva que infiltra, e, que
chega até o lençol freático, sofre grandes perdas.
Durante o ano inteiro as temperaturas permanecem elevadas sendo a
temperatura média anual na estação de medição de Apodi de 27.2 oC,
a temperatura mínima média de 22.9 oC e a temperatura
máxima média de 40.0 oC.
As Tabelas 10, 11
e 12 mostram
respectivamente as normais de temperatura média, mínima e máxima das
diferentes estações de medição do Estado do Rio Grande do Norte.
A insolação média anual da estação de Apodi é de aproximadamente
3000 horas por ano (vide Tabela
13).
Os ventos que dominam na área são os ventos alíseos de sudeste, que
constituem a massa equatorial atântica. Ocorrem secundariamente ventos
de NE e E. Nota-se uma sensível redução da intensidade dos ventos com
o afastamento do litoral. Em Apodi a velocidade média anual dos ventos
é de 2.5 m/s (vide Tabela 14).
O
sistema de drenagens na Bacia Potiguar é em geral pouco densa e
caracterizada por uma rede preferencialmente difusa de riachos
intermitentes com pequena expressão em área. Há ainda a presença
menos frequente de drenagens do tipo endorréica, que formam escarpas em
áreas de afloramentos de calcários da Formação Jandaíra, ou mesmo
onde estes estejam recobertos pelos sedimentos do Grupo Barreiras.
A
área de estudo encontra-se na bacia hidrográfica dos rios
Apodi/Mossoró (vide Figura 9).
Na
área de estudo ocorrem dois rios principais: rio Apodi / Mossoró e rio
do Carmo. Ambos tem seus vales desenvolvidos transversalmente às
principais linhas estruturais regionais. Na região em que os mesmos
saem dos sedimentos da Formação Açu adentrando os sedimentos da
Formação Jandaíra se formam pequenos “canyons”.
No
que diz respeito à relação entre as águas subterrâneas e a drenagem
superficial, como pode ser notado através de mapas piezométricos, as
águas subterrâneas dos calcários da Formação Jandaíra, tem seu
fluxo na mesma direção que os rios Apodi, rio do Carmo e rio Açu
(direção norte), supondo-se que, embora não se observe fluxo
superficial de base, os mesmos funcionem como verdadeiros drenos,
conduzindo as mesmas até o oceano.
Devido
à quase inexistência de estações fluviométricas nos vales da Bacia
Potiguar, no entanto, possui-se pouco conhecimento das relações entre
as águas subterrâneas e as águas superficiais.
Nos
aluviões do rio Apodi, próximo à cidade de Apodi, foi constatado que
o Aquífero Açu apresenta evidências de surgência de águas
subterrâneas. Este fato sugere que o Aquífero Açu pode, localmente,
alimentar os aluviões superpostos. No entanto, a evaporação intensa
impede que sejam mantidos cursos de água durante as estiagens.
A
coluna estatigráfica (vide Figura
10) exibe as proposições mais recentes do agrupamento
das rochas existentes no Rio Grande do Norte, estando baseada em
considerações efetuadas por Araújo et alii. (1978).
A
Figura 11 (Figura
11 em pdf) mostra o mapa geológico da região considerada no
presente estudo onde ocorrem as seguintes formações litológicas (da
base para o topo): embasamento cristalino, Formação Açu, Formação
Jandaíra e depósitos aluvionares.
Neste
trabalho foram efetuadas diversas seções geológicas através da
área. Suas localizações podem ser observadas na Figura
12 (Figura 12 em pdf). As Figuras
13, 14,
15, 16,
17, 18,
19, 20,
21, 22,
23, 24,
25, 26
e 27 mostram as
principais seções geológicas efetuadas. Estas seções geológicas
foram fundamentais no entendimento da geologia de subsuperfície,
servindo de base para a elaboração da geometria do sistema aquífero e
hidro-estratigrafia, assim como para o desenvolvimento do modelo
conceitual da área.
No
domínio da área de estudo os aluviões quaternários que merecem
destaque são os relacionados aos rios Apodi e do Carmo. As litologias
presentes são bastante variáveis e de maneira geral esses aluviões
são formados por clásticos ocasionalmente grosseiros, contidos em
matriz mais ou menos argilosa, por vezes rica em matéria orgânica.
As
planícies aluviais localizadas sobre a Formação Açu tem sua
evolução relacionada à barreira geomorfológica constituída pelas
arestas do contato dos calcários da Formação Jandaíra com os
arenitos da Formação Açu.
No
baixo curso dos rios os aluviões ocorrem em forma de tabuleiros
escalonados e planícies de inundação. Na borda destes tabuleiros, no
contato com a Formação Jandaíra, podem ser encontrados conglomerados
(“cascalheiras”) contendo blocos de sílex, de quartzo e de diversas
rochas do embasamento cristalino.
Na
planície aluvial do rio Apodi, próximo à cidade de Apodi, foram
encontrados depósitos aluvionares até uma profundidade de 40 metros.
A
Formação Açu, de idade cretácica, aflora numa faixa que circunda a
Bacia Potiguar, entre as rochas do embasamento e os sedimentos da
Formação Jandaíra, sendo recoberta na área em que aflora, em
pequenas áreas isoladas, pelos aluviões dos rios Jaguaribe, Apodi, do
Carmo, Piranhas e Cabugi.
Na
porção onde aflora, a Formação Açu apresenta uma espessura média
de cerca de 100 metros, sendo composta por rochas siliciclásticas de
ambiente fluvial a costeiro de idade Albiana.
A
Formação Açu é caracterizada por sedimentos clásticos em camadas
relativamente espessas e de granulometria muito fina a conglomerática.
É subdividida em dois membros sendo o superior de composição
pelito-psamítica e o inferior essencialmente psamítico.
O
membro superior tem espessuras que variam de 10 a 40 metros, sendo
constituído no topo por folhelhos, argilitos e siltitos com
intercalações de arenitos finos e raros bancos de calcários e margas,
passando a arenitos finos a médios, argilosos, com intercalações de
folhelhos e siltitos. Situam-se neste membro os reservatórios de
hidrocarbonetos. Apesar de fonte de riqueza, também representam um
potencial de contaminação das águas subterrâneas. A localização
dos campos petrolíferos não foi disponibilizada para este estudo. A Figura
28 mostra o topo do membro superior da Formação Açu (base da
Formação Jandaíra) ao passo que a Figura
29 mostra a espessura desta unidade.
O
membro inferior pode ter espessuras acima de 200 metros, apresentando na
base arenitos grosseiros a conglomeráticos (seixos de quartzo de
pequenos diâmetros), por vezes arcoseanos, mal selecionados, gradando
em direção ao topo para arenitos finos com delgadas intercalações de
folhelhos e siltitos. Este membro constitui o denominado aquífero Açu,
confinado entre o membro superior da Formação Açu e o embasamento
cristalino que forma a base do sistema aquífero. Suas águas são de
ótima qualidade físico-química, sendo utilizadas para todos os fins.
O
membro inferior da Formação Açu foi depositado em uma fase de
pronunciada subsidência no intervalo Neocomiano a Barremiano. Seguiu-se
depois no Aptiano, um intervalo de quietude tectônica durante a qual,
em ambiente flúvio-deltaico, foi depositado o membro superior. A Figura
30 mostra o topo do membro inferior da Formação Açu (base do
membro superior da Formação Açu) ao passo que a Figura
31 mostra a espessura desta unidade.
A
Formação Açu assenta-se discordantemente sobre as rochas do
embasamento cristalino, sendo que seu contato com a Formação Jandaíra
se dá de forma gradacional. Nas partes onde a Formação Jandaíra
encontra-se ausente na área de estudo a Formação Açu encontra-se
aflorante ou recoberta por sedimentos aluvionares.
A
Formação Jandaíra ocorre em todo domínio da Bacia Potiguar.
Apresenta exposição na parte norte da área de estudo apresentando uma
ampla superfície erosional que forma chapadas e sendo recoberta de
maneira descontínua por depósitos aluvionares.
A
Formação Jandaíra caracteriza-se por carbonatos marinhos de águas
rasas e agitadas de idade Turoniana a Santoniana. A deposição da
Formação Jandaíra em sua porção emersa da Bacia, se deu em ambiente
de plataforma interna, sob condições de super-maré, acompanhada de
subsidência gradual, em período de relativa aquiescência tectônica.
Na
porção a oeste do rio Açu predomina, em superfície, o caráter
calcífero dos calcários dessa formação ao passo que a leste
predominam dolomitos. Cresce também em direção a leste a
participação de clásticos finos nos sedimentos carbonáticos.
Na
área de estudo ocorrem calcários clásticos e dolomíticos,
calcilutitos bioclásticos, calcarenitos e calcilutitos com “birds
eyes”, indicativos de planície de maré. Estes sedimentos apresentam
coloração predominantemente creme e cinza, são duros, finos, com
intercalações de argilitos e com bancos ricamente fossilíferos
(moluscos, algas verdes, briozoários e equinóides). Junto ao contato
com a Formação Açu ocorrem ainda camadas de folhelhos verdes a
cinza-escuros, calcíferos, carbonosos e irregularmente estratificados.
A Figura 28 mostra a base
da Formação Jandaíra e a Figura
32 mostra a espessura desta formação.
Os
sedimentos carbonatados da Formação Jandaíra são concordantes com os
folhelhos e siltitos da Formação Açu Superior, sendo o contato
gradativo.
As
rochas do embasamento cristalino pré-cambriano, que afloram na área,
fazem parte dos Granitóides Brasilianos. Constituem rochas
gnáissico-migmatíticas, sendo que também foram encontrados
afloramentos de plútons granitóides.
No
presente estudo o embasamento configura a base do sistema aquífero,
sendo considerado impermeável, em relação às condutividades
hidráulicas e aos fluxos expressivamente maiores no Aquífero Açu. A Figura
33 mostra o topo do embasamento cristalino obtido após a
interpolação dos dados disponíveis.
A
melhor referência bibliográfica existente sobre a geologia estrutural
da área de estudo é o trabalho efetuado por MEDEIROS, W.E. et alii
(2001) intitulado “Estrutura Geológica do Aquífero Açu na Borda
Sul da Bacia Potiguar entre Apodi e Upanema”. Neste trabalho foram
utilizadas ferramentas de análise estrutural e geofísica. O mesmo faz
parte de um projeto conveniado entre a CAERN (Companhia de Águas e
Esgotos do Rio Grande do Norte) e a UFRN, através da FUNPEC (Fundação
de Pesquisa e Cultura Norte-Riograndense), coordenado pelo Prof. Dr.
José Geraldo de Melo, do Departamento de Geologia/Programa de
Pós-Graduação em Geociências. O objetivo deste projeto foi otimizar
a explotação dos aqüíferos da região compreendida entre Apodi e
Upanema, através de um melhor conhecimento da sua estrutura geológica.
A
seguir serão apresentados os principais resultados deste trabalho.
O
levantamento estrutural-geofísico foi desenvolvido em escala regional,
envolvendo: (i) compilação de mapa geológico em escala 1:200.000 (a
partir de documentos prévios e check
de terreno) e interpretação de lineamentos, com base em imagem Landsat
TM 7 ETM+ (WRS 216/064 de 13/08/1999); (ii) levantamento de dados
estruturais no terreno; (iii) análise dos dados gravimétricos; (iv)
execução de sondagens elétricas; (v) síntese de dados, correlações
e interpretação.
Na
borda sul da Bacia Potiguar, a Formação Açu aflora capeando o
embasamento cristalino. Dados de poços e as sondagens geofísicas
sugerem espessuras que atingem até 150 m. Poços com melhores vazões
parecem coincidir com as áreas de maior espessura deste aqüífero, as
quais, em geral, estão localizadas na porção norte de sua faixa de
ocorrência (Carvalho 1999; Gurgel 2000). A variação na profundidade
do embasamento cristalino, nos poços perfurados nesta região, sugere a
ocorrência de baixos estruturais – em especial, estruturas tipo graben ou semi-graben, nos
quais a seção sedimentar também apresentaria maiores espessuras.
Os
dados coletados neste trabalho, em especial a sísmica de reflexão,
permitem delinear as falhas de borda e internas do graben
central NE, de idade Neocomiana-Barremiana, e que ocorrem imediatamente
a norte, ou na porção norte, da área de interesse deste projeto. A
norte de Upanema, o Sistema de
Falhas de Carnaubais, com movimentação normal e trend
NE, passa gradualmente a falhas de trend
NW entre Felipe Guerra e Apodi (Falha
de Baixa Grande), representando estruturas de transferência
(rejeito lateral) ou de rejeito também normal. Ambos os sistemas
mergulham para norte (variando de NW a NE), definindo os limites
externos dos graben de Umbuzeiro (a NW da Falha de Carnaubais) e de Apodi (a NE
da Falha de Baixa Grande). A PETROBRAS considera que os arenitos Açu
constituem um pacote tabular, espessando e aprofundando para norte,
capeando em discordância as falhas acima citadas e/ou o embasamento
precambriano. Um pequeno graben
satélite de trend E-W (Graben de Algodões), ocorre a norte de Apodi, aproximadamente
abaixo do contato, em superfície, entre as formações Açu e
Jandaíra.
A
borda sul da bacia (contato da Formação Açu com o embasamento), entre
Caraúbas e Upanema se apresenta retilínea, sugerindo controle por
falha ENE (possível reativação de zona de cisalhamento). A cobertura
colúvio-aluvionar, presente naquele trecho, impediu a confirmação
dessa estrutura. A SW de Upanema foi mapeado um provável alto
estrutural na Formação Açu, no qual se expõe o embasamento
precambriano cataclasado.
Na
área de afloramento das formações Açu e Jandaíra, foram mapeados
vários fotolineamentos retilíneos, que em sua maior parte devem
corresponder, ou correspondem a falhas e fraturas; são mais frequentes
as estruturas de trend NE e NW, que inclusive deslocam o traço do contato entre
essas formações, secundadas por outras de direção próxima a N-S ou
E-W. Também foram mapeados os trends
do acamamento na Formação Jandaíra, que assumem orientação mais
variável, em parte controlados pela topografia, em parte por mudanças
no mergulho das camadas.
O
estudo gravimétrico foi realizado numa área mais ampla do que aquela
delimitada no mapeamento geológico, de modo a permitir uma melhor
caracterização do campo anômalo. O objetivo deste estudo foi o de
delimitar a borda do graben
central (ou mais exatamente, dos graben
de segunda ordem) da Bacia Potiguar, evidenciando a estruturação
profunda da bacia na área do projeto.
O
mapa de anomalias Bouguer foi obtido com a interpolação de 1.860
estações gravimétricas. Neste mapa, anomalias positivas e negativas
estão associadas com “excesso” e “deficiência” de massa em
relação a um modelo de referência da Terra. A principal feição
registrada é a anomalia negativa, em forma de bumerangue, com
direções que variam de NE a NW, localizada na região central do mapa.
Esta anomalia está associada ao Graben
de Umbuzeiro (setor leste da anomalia, com direção NE) e ao Graben de Apodi (setor oeste da anomalia, com direção NW). Deste
modo, o topo do embasamento define regionalmente uma grande depressão,
seguindo a citada forma de bumerangue. A área deste projeto se situa
dominantemente nas terminações SE (setor
leste) e SW (setor oeste)
desta depressão; deste modo, a superfície do embasamento pode ser aqui
visualizada, em primeira aproximação, como uma grande rampa encurvada,
que mergulha para NW no setor oriental, e para NE no setor ocidental.
O levantamento da eletro-resistividade (16 sondagens elétricas) visou
principalmente obter estimativas de espessura saturada do aqüífero
(ou, mais precisamente, da espessura saturada da coluna sedimentar) e
das profundidades do embasamento cristalino na região, de modo a
complementar as informações de poços e contribuir para formar um
primeiro modelo geométrico-estrutural do aqüífero. Foi utilizada a
técnica da sondagem elétrica vertical (designada de SEV’)
com o arranjo Schlumberger. Esta técnica permite caracterizar
variações da resistividade em função da profundidade. As locações
foram efetuadas em áreas de topografia suave e que permitissem uma
abertura de eletrodos compatível com a profundidade de exploração.
A Figura 33 mostra o topo
do embasamento cristalino (base do membro inferior da Formação Açu),
com os falhamentos existentes.
O
principal sistema aquífero da área de estudo compreende os aquíferos
Jandaíra e Açu. Os aluviões às vezes possuem quantidades de água
explotáveis, no entanto são de importância regional menor. No modelo
matemático, devido à escala de trabalho regional, os mesmos foram
considerados de maneira simplificada. Foram adotados valores de
condutividade hidráulica média para todo o pacote aquífero, já que
não foi possível discretizar todas as pequenas lentes e camadas
argilosas e outros materiais presentes.
O
aquífero Jandaíra localiza-se na porção superior das sequências
carbonáticas da Formação Jandaíra. Estes calcários frequentemente
apresentam indícios de carstificação. A Formação Jandaíra possui
grande variabilidade espacial em suas litologias, sendo a circulação
interior do aquífero considerada como principalmente de natureza
cárstica.
Sobreposto
ao aquífero Açu, do qual se separa por pacote sedimentar
semi-permeável, o aquífero Jandaíra tem suas reservas aquíferas
influenciadas pelas relações do comportamento hidráulico entre ambos.
O
aquífero Jandaíra se apresenta de uma maneira geral como uma camada
subhorizontal, com espessuras variando de 50 a 250 metros (vide Figura
32), se comportando como aquífero livre na área de estudo.
Em
mapas potenciométricos elaborados observa-se uma tendência regional do
fluxo subterrâneo de sul para norte, em direção ao Oceano Atlântico.
Secundariamente o fluxo se dá em direção aos vales dos principais
rios (rios Apodi e do Carmo) da área de estudo, servindo como
escoamento das águas subterrâneas para o mar.
Os
gradientes hidráulicos são variáveis sendo o maior gradiente
identificado perto da cidade de Baraúnas (0.033). Na porção central
da área de estudo os valores variam entre 0.005 e 0.027.
Os
valores de transmissividade também variam muito, com valores entre 8 x
10-6 m2/s a 7 x 10-3 m2/s,
sendo a média 8 x 10-4 m2/s. No entanto, cabe
lembrar que não existem muitos ensaios de bombeamento no aquífero
Jandaíra, podendo ser que estes valores não sejam representativos de
todo o aquífero.
As
águas do aquífero Jandaíra apresentam durezas em geral superiores a
200 mg/L (CaCO3), e às vezes são salgadas (concentração
de sais entre 1 e 5 g/L), sendo nesses casos aproveitadas apenas para
consumo animal.
Este
aquitarde da base do aquífero Jandaíra é constituído por diferentes
litologias, correspondentes ao topo da Formação Açu e à base da
Formação Jandaíra, e foi tratado anteriormente neste relatório como
membro superior da Formação Açu. As principais litologias desta
camada são: argilas arenosas, argilas siltosas, argilitos, folhelhos,
margas, calcarenitos e calcários compostos, com eventuais
intercalações de lentes arenosas a diferentes níveis.
A
área de ocorrência da camada semi-confinante coincide a grosso modo
com a área de ocorrência da Formação Jandaíra.
Do
ponto de vista hidráulico esta camada funciona como camada confinante
do Aquífero Açu e dependentemente das diferenças de cargas
hidráulicas entre esta e o aquífero Jandaíra, é responsável por uma
entrada (drenança vertical ascendente) ou saída (drenança vertical
descendente) de água do aquífero Jandaíra.
Com
base na sua composição litológica e nos resultados obtidos com o
modelo de fluxo, deve-se considerar a condutividade hidráulica vertical
desta camada como variando entre 1 x 10-8 e 1 x 10-10
m/s.
Devido
à sua extensão, localização no Estado do Rio Grande do Norte e
qualidade de suas águas subterrâneas, o Aquífero Açu desempenha
importante papel como supridor de àgua, sendo o principal aquífero da
Bacia Potiguar.
As
rochas que formam o Aquífero Açu tem composição variada, sendo no
entanto, representadas principalmente por arenitos pouco argilosos,
arcosianos, predominantemente quartzosos, médios a grosseiros e por
vezes conglomeráticos. As observações de campo na área de estudo e a
análise de perfis dos poços, mostram que o Aquífero Açu repousa
sobre as rochas do embasamento cristalino.
No
topo a camada aquífera apresenta, a nível regional, condições de
semi-confinamento, propiciadas pelas camadas argilosas da porção
superior da Formação Açu e/ou pela porção basal da Formação
Jandaíra. No entanto, nas áreas de exposição da Formação Açu o
Aquífero Açu deve ser considerado um aquífero livre.
A
espessura do Aquífero Açu varia de 50 metros (área de afloramento da
Formação Açu) até 300 metros (na área onde encontra-se sotoposto ao
aquífero Jandaíra) (vide Figura
31).
O
mapa potenciométrico apresentado na Figura
34 baseia-se em medições de nível d’água efetuadas pela
UFRN, SERHID e CAERN no período de outubro de 2000 a fevereiro de 2001.
A Tabela 15 mostra os
valores utilizados. O mapa revela uma tendência geral de fluxo em
direção ao oceano, com gradientes variando de 0.0005 a 0.008, sendo o
valor médio 0.0008.
A
presença de hidrocarbonetos na Formação Açu é um aspecto importante
a ser comentado, pois, dependendo do seu nível de ocorrência, poderá
limitar as potencialidades do aquífero Açu. As áreas de campos
petrolíferos não foram consideradas neste estudo, já que estas não
foram disponibilizadas pela PETROBRAS.
As
características hidrodinâmicas do Aquífero Açu na área de estudo
foram determinadas a partir de ensaios de bombeamento realizados nos
próprios poços. Este tipo de ensaio não é o mais apropriado, já que
não existem poços de observação que indiquem a resposta do aquífero
ao bombeamento induzido pelos poços de explotação. No entanto, os
valores de transmissividade obtidos servem para se ter uma idéia da
ordem de grandeza destes valores. A Tabela
16 mostra os resultados destes ensaios.
Os
valores de transmissividade variam bastante nas três regiões
consideradas (Apodi, Caraúbas e Upanema). Constam valores que vão de
8.9 x 10-6 m2/s até 2.3 x 10-3 m2/s.
A Figura 35 mostra a
distribuição das transmissividades em planta.
Valores
de condutividade hidráulica foram também obtidos a partir dos mesmos
ensaios descritos acima, com limitações similares. O valor médio de
condutividade hidráulica da região de Apodi é de 1.84 x 10-5
m/s, da região de Caraúbas de 1.85 x 10-5 m/s e da região
de Upanema1.07 x 10-5 m/s. Nota-se que os valores variam
bastante dentro de cada região. Na Figura
36 pode-se observar a distribuição das condutividades
hidráulicas do Aquífero Açu em planta.
O
coeficiente de armazenamento foi determinado em alguns poucos ensaios de
bombeamento, sendo que os valores identificados variam de 1.4 x 10-4
até 2.8 x 10-3. Estes dados podem não ser representativos
de todo o aquífero na área de estudo.
Segundo
dados antigos da PETROBRAS, os valores de porosidade total variam de 24
a 38%.
Para
se avaliar a recarga proveniente da infiltração das águas pluviais é
necessário conhecer-se a taxa de infiltração. Como não existem
medidas diretas desta taxa na área de estudo, a mesma tem sido avaliada
de maneira indireta através de balanços hídricos.
A
superfície de domínio dos calcários da Formação Jandaíra aflorante
na área de estudo é de aproximadamente 1.250 km2.
Considerando uma pluviosidade média anual de 700 mm (vide Figura
8) o volume de águas pluviais total anual da área é de
875.000.000 m3. No trabalho executado pelo IPT em 1982
intitulado “Estudo Hidrogeológico Regional Detalhado do Estado do Rio
Grande do Norte” para a Secretaria de Indústria e Comércio do
Governo do Estado do Rio Grande do Norte, a taxa de infiltração
estimada das rochas da Formação Jandaíra é de 0.9%, ou seja, 7.875.000
m3/ano (21.580 m3/dia).
A
superfície de domínio dos arenitos e demais rochas da Formação Açu
e dos aluviões aflorantes na área de estudo, é de aproximadamente
1.550 km2. Considerando uma mesma pluviosidade média anual
de 700 mm o volume de águas pluviais total anual da área é de
1.085.000.000 m3.
Rebouças
et alii. (1976) obtiveram, através de um balanço hídrico efetuado do
aquífero Açu, um valor médio da taxa de infiltração de 0.9% (26.750
m3/dia). Mercado et alii (1974), utilizando conjuntamente
dados hidrológicos, hidroquímicos e isotópicos, concluiram que a taxa
de infiltração seria de 3.6% (107.014 m3/dia). Feitosa e
Melo (1998) avaliam a taxa de infiltração em 4.2% (124.850 m3/dia).
Como descrito mais a frente foi utilizado um valor de 2.5% no modelo
matemático de fluxo 27.535.000 m3/ano aproximadamente
(75.430 m3/dia), valor utilizado nos cálculos da
Potencialidade Hídrica (vide Capítulo 8 – Modelo Matemático de
Fluxo).
As
reservas permanentes dos aquíferos são definidas como sendo a
quantidade de água armazenada nos terrenos, susceptível de ser
restituída por gravidade. Correspondem portanto ao volume de água que
pode ser teoricamente extraída por meio de bombeamento com o objetivo
de esgotar o aquífero.
O
cálculo é efetuado através da seguinte fórmula matemática: Rp
= A*h*ne, onde Rp é a reserva permanente, A é a
área da superfície livre das águas subterrâneas, h é a espessura
média e ne é a porosidade efetiva.
As
reservas reguladoras correspondem aos volumes de águas restituídas do
meio físico exterior ao sistema aquífero. São portanto
correspondentes ao volume de água armazenado no aquífero em sua
porção compreendida entre os dois níveis extremos, mínimo e máximo,
da superfície piezométrica no decorrer do período considerado.
Portanto, em condições de equilíbrio, as reservas reguladoras dos
aquíferos correspondem ao volume efetivamente infiltrado.
No
caso do aquífero Jandaíra os valores de A, h e ne
correspondem respectivamente a 1.250 km2, 100 metros e 0.05.
Efetuando-se o cálculo da reserva permanente obtem-se um valor
de 6.250.000.000 m3. A reserva reguladora
corresponde ao valor de 7.875.000 m3/ano. Estes
valores são valores estimados e baseiam-se no trabalho do IPT (1982).
O
Aquífero Açu apresenta quatro processos distintos de recarga: por
infiltração das águas de chuva, que se precipita sobre a área de
exposição da Formação Açu; por drenança das águas do aquífero
superior (Jandaíra), através da camada semi-confinante, por
infiltração através dos aluviões e por infiltração das águas de
enchente nos aluviões dos principais rios que cortam as áreas de
exposição do aquífero. Como decorrência da escassez de dados e
informações e das complexidades dos quatro processos, não foi
possível quantificá-los de maneira segura. Em comparação com os
outros três processos a infiltração de águas de enchentes é baixa e
pode ser desconsiderada nos cálculos do balanço hídrico.
Para
a determinação das reservas permanentes do Aquífero Açu foi
calculado o volume de água de saturação (como foi calculado para o
aquífero Jandaíra). Para este cálculo os valores de A, h e ne
correspondem respectivamente a 1.550 km2 (área de
afloramento do aquífero Açu na área de estudo), 70 metros e 0.10.
Efetuando-se o cálculo do volume de água de saturação
obtem-se um valor de 10.850.000.000 m3, que é a reserva
permanente do Aquífero Açu em sua área de afloramento. A reserva
reguladora corresponde à infiltração, que é de 27.535.000 m3/ano
(2.5% do volume de águas pluviais anuais).
Nos
cálculos anteriores não foi considerada a drenança que ocorre entre
os aquíferos Jandaíra e Açu. O assunto merecerá atenção
posteriomente quando for discutido o modelo matemático de fluxo
elaborado para este estudo.
No
trabalho intitulado “Avaliação das Potencialidades e
Disponibilidades de Água Subterrânea no Rio Grande do Norte”
executado para o Plano Estadual de Recursos Hídricos do Rio Grande do
Norte por Edilton Carneiro Feitosa e José Geraldo de Melo
(Hidroservice, 1998) foram avaliadas as disponibilidades hídricas
municipais do Estado do Rio Grande do Norte em termos de bacias
hidrográficas e por municípios. A bacia hidrográfica da área de
estudo é a bacia 1 e os munícipios são: Município de Apodi,
Município de Upanema, Município de Caraúbas, Município de Felipe
Guerra e Município de Gov. Dix-Sept Rosado.
As
reservas explotáveis de um aqüífero referem-se às vazões de
explotação ou descargas explotáveis desse aqüífero. Assim, desde
que os conceitos de disponibilidade e potencialidade são intimamente
associados ao conceito de reservas explotáveis, os mesmos foram
tratados como descargas no trabalho citado acima. Os termos
disponibilidade e potencialidade podem ser explicados da seguinte
maneira.
Disponibilidade
– Definida como o volume de água efetivamente disponível no momento
considerado, a partir das captações existentes na área em estudo,
considerando-se bombeamento em regime contínuo. A disponibilidade pode
variar entre zero, na inexistência de captações, até um máximo
equivalente às reservas explotáveis.
Potencialidade
– Definida como a diferença entre as reservas explotáveis e a
disponibilidade. Assim, a potencialidade pode variar entre um máximo
equivalente às reservas explotáveis, em regiões virgens, e zero,
quando a explotação já estiver consumindo essas reservas.
Reservas Renováveis
- Definidas como o volume anual de recessão para os rios mais o volume
anual de escoamento subterrâneo para outros exutórios. Esses volumes
são repostos anualmente pela pluviometria.
Reservas Explotáveis
– Definidas como sendo as reservas renováveis e, em zonas áridas e
semi-áridas, pode ser acrescentado um certo percentual das reservas
permanentes. Este percentual não pode ser definido de antemão, uma vez
que depende de inúmeros fatores, os quais só podem ser conhecidos e
quantificados após um certo tempo de monitoramento das respostas do
aqüífero ao bombeamento. Sabe-se entretanto que, nos aqüíferos
livres onde as interações com o ciclo hidrológico são mais francas,
este percentual das reservas permanentes tende a ser pequeno ou nulo (ou
mesmo negativo, em áreas sensíveis a variações de nível d’água).
Nos aqüíferos confinados ou semiconfinados, profundos (Aqüífero
Açú na Região de Mossoró), onde as interações com o ciclo
hidrológico são difíceis, as reservas renováveis têm participação
ínfima ou mesmo nula na descarga bombeada. Neste caso, a explotação
faz-se em regime de exaustão, as reservas explotáveis são definidas
por modelamento numérico, avaliando-se os efeitos de alternativas de
bombeamento em função de seus impactos potenciais em termos dos
condicionantes hidrogeológicos e aspectos socio-econômicos, ambientais
e legais do contexto.
A
Tabela 17 mostra a
disponibilidade e potencialidade na Bacia Apodi/Mossoró ao passo que a Tabela
18 apresenta estes valores nos cinco municípios que possuem
áreas na região estudada neste trabalho. Estes dados foram levantados
por Feitosa & Melo em 1998.
A
título de comparação são apresentados os resultados obtidos com o
modelo matemático no cenário atual para as áreas dos cinco
municípios contidos na região de estudo, que coincide com os limites
do modelo matemático de fluxo (vide também Capítulo 8 –
Modelo Matemático de Fluxo).
Para
a área do município de Apodi a disponibilidade hídrica é de
16.600 m3/dia
(690 m3/hora), as reservas renováveis são da ordem de
52.400 m3/dia (2.180 m3/hora) e a potencialidade
hídrica será a diferença entre estas duas vazões, ou seja, 35.800 m3/dia (1.490 m3/hora)
(vide Figura 37).
Para
a área do município de Upanema a disponibilidade hídrica é de
5.000 m3/dia
(210 m3/hora), as reservas renováveis são da ordem de
35.600 m3/dia (1.490 m3/hora) e a potencialidade
hídrica é de 30.600
m3/dia (1.280 m3/hora).
Para
a área do município de Caraúbas a disponibilidade hídrica é
de 12.300 m3/dia
(510 m3/hora), as reservas renováveis são da ordem de
25.900 m3/dia (1.080 m3/hora) e a potencialidade
hídrica é de 13.600
m3/dia (570 m3/hora).
Para
a área do município de Felipe Guerra a disponibilidade hídrica
é de 1.400 m3/dia (60 m3/hora), as reservas renováveis são
da ordem de 12.900 m3/dia (540 m3/hora) e a
potencialidade hídrica é de 11.500 m3/dia (480 m3/hora).
Para
a área do município de Dix-Sept Rosado a disponibilidade
hídrica é de 170 m3/dia (7 m3/hora), as reservas renováveis são da
ordem de 7.100 m3/dia (295 m3/hora) e a
potencialidade hídrica é de 6.930 m3/dia (288 m3/hora).
Portanto, de acordo com o modelo matemático a área de estudo apresenta
um potencial ainda não explorado expressivo. Em conjunto, apenas 26%
das reservas renováveis estão sendo utilizadas de acordo com o modelo
matemático. Restam portanto 76% das