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Projeto Água Subterrânea no Nordeste do Brasil

Desenvolvimento Rural Sustentável

Um Guia Prático para as Comunidades do Semi-Árido Nordestino

por 

Roberta Borges de Medeiros Falcão

Ana Paula da Silva Oliveira

 

Parte 3
Sustentabilidade Humana 

 

Compreendemos a Sustentabilidade Humana como aquela que se vincula ao conhecimento e a capacidade criativa de transformá-lo, envolvendo os aspectos de saúde, a alimentação e a nutrição, a educação, a cultura e a pesquisa para desencadear o processo de promoção da sustentabilidade, necessitando criar um ambiente favorável ao desenvolvimento. 


NUTRIÇÃO (ALIMENTAÇÃO ALTERNATIVA)

 

A questão alimentar e nutricional de parte da sociedade brasileira, especialmente a que vive nos bolsões de pobreza, deve ser objeto de atenção redobrada em toda proposta de desenvolvimento sustentável. 

É grande o número de crianças que não têm alimentação adequada dentro de suas casas, necessitando de uma complementação alimentar. A merenda escolar, muitas vezes, supre essa deficiência, tornando-se, além de um estímulo para a permanência da criança na escola, uma importante fonte de proteína que possibilita melhor desempenho dos alunos nas atividades escolares.

A nutrição brasileira de uma maneira em geral mostra um aproveitamento insuficiente do potencial nutritivo dos alimentos. A fome é agravada pela ausência de iniciativas para uma melhor utilização de fontes nutrientes disponíveis. Com base nessa filosofia é que surgiu a necessidade da realização de cursos de alimentação alternativa. 

A intenção é evitar o desperdício da complementação alimentar de baixo custo que pode ser encontrada em folhas de hortaliças, vegetação espontânea, sementes e farelos produzidos no beneficiamento de cereais, como arroz e trigo. 

A alimentação alternativa propõe o enriquecimento com um concentrado de minerais e vitaminas para se obter uma dieta mais equilibrada, sem mudar o sabor ou tipo de preparação. Essa “pequena” decisão leva a uma economia média de 30% do que come uma pessoa.

O fornecimento da alimentação alternativa para crianças proporciona cicatrização de lesões cutâneas, melhoria da visão e dos reflexos motores e psíquicos, diminuição de diarréias e outros sintomas típicos da desnutrição, aumento da capacidade de resposta a estímulos e redução de apatia e dificuldades de aprendizado. 

A alimentação alternativa possibilita o aproveitamento mais racional de recursos naturais, ao eliminar o desperdício de alimentos (e partes de alimentos) com grande poder nutritivo. Ao valorizar aspectos da culinária brasileira popular, possibilitando a redescoberta de antigas receitas e a reavaliação de outras, a alimentação alternativa pode ser uma intervenção cultural significativa junto à população da comunidade.

Uma alternativa eficaz para combater a fome e a desnutrição no semi-árido nordestino, além de ser uma importante aliada nos tratamentos de saúde é a palma forrageira rica em vitaminas A, complexo B e C e minerais como Cálcio, Magnésio, Sódio, Potássio além de 17 tipos de aminoácidos. A palma é mais nutritiva que alimentos como a couve, a beterraba e a banana com a vantagem de ser um produto mais econômico. 

A planta pode ser usada para fazer sucos, saladas, pratos guisados, cozidos e doces. O preconceito é o maior obstáculo para fazer com que os sertanejos aderiram este alimento, pois tradicionalmente a palma é apenas usada como ração animal. Em muitos países como o México, Estados Unidos e Japão a palma é considerada um alimento nobre, servida em restaurantes e hotéis de luxo. 

Como alternativa de tratamento fitoterápico, estudos realizados mostram que a palma ajuda a eliminar as toxinas do álcool e do fumo que são absorvidas pelo organismo, a metabolizar a gordura do organismo, diminuir a concentração de açúcar no sangue, colaborando assim na redução das taxas de colesterol e no controle da diabetes. Como possui muitas fibras solúveis e insolúveis, a palma colabora para o bom funciomnamento do sistema digestivo além de impedir a concentração de elementos cancerígenos.

CULTURA

 

As manifestações artísticas e culturais são consideradas uma excelente alternativa para desenvolver um processo de sensibilização das comunidades em geral com relação às problemáticas sociais, econômicas e ambientais, além de ter a capacidade de atrair multidões contribuindo para a conscientização da opinião pública sobre os problemas do semi-árido.

Necessário, assim, criar uma série de medidas que possa preservar a cultura sertaneja nordestina buscando a) Fortalecer o Artesanato em núcleos de produção incentivando a formação de núcleos profissionalizantes para treinamentos, produção e comercialização de produtos artesanais; b) Criar espaços sócio-culturais para crianças, jovens e idosos utilizando de peças teatrais, danças, músicas regionais como forma de resgatar e preservar a cultura popular e como forma de lazer acessível para todos, servindo também como atrativo turístico; c) Promover festas populares com o apoio dos setores público e privado, tais como: Festas Juninas, Religiosas e Natalinas; d) Promover oficinas de teatro em todas as comunidades.

EDUCAÇÃO

Pesquisas apontam que a população economicamente ativa do Brasil tem, em média, apenas quatro anos de estudo. O que reflete uma população relativamente jovem, com pelo menos 20 anos de vida profissional pela frente, que só será produtivamente realizada se adquirir competências cada vez mais exigentes pelo mercado de trabalho globalizado.

Na realidade, a educação rural brasileira nunca teve diretrizes políticas e pedagógicas determinadas, nem dotações financeiras que viabilizassem a institucionalização e manutenção de escolas com um nível de ensino de qualidade para toda a sua população. 

A Educação da zona rural do semi-árido, de uma maneira em geral, vive em situação dramática, desmotivando as pessoas para continuar os estudos e permanecer na região. Os professores são mal remunerados e não recebem capacitação adequada. As condições estruturais são precárias e muitas vezes inexistentes. Os índices de analfabetismo são de 21% para o Brasil e de 40% para o Nordeste, todavia que não estão computados aqueles que conseguem apenas escrever o nome.

Ocorrem altos índices de repetência e de evasão escolar, provocados, na grande maioria das vezes, pela carência alimentar e pelo currículo escolar dissociado das atividades agropecuárias. Muitas famílias ficam impossibilitadas financeiramente em manter os filhos na escola, necessitando da mão de obra infanto-juvenil para a sobrevivência da família. Mesmo na população considerada alfabetizada, existe uma boa parte que mal consegue assinar o próprio nome.

A sustentabilidade depende da oportunidade e da capacidade de se ter um lugar na comunidade a que está inserida. O analfabetismo e o desemprego escravizam o pobre à miséria. As regiões brasileiras mais pobres são as que têm maior dificuldade em garantir os recursos para o desenvolvimento humano e são justamente os que dele mais necessitam.

A nível nacional, pouco mais de 34 milhões de crianças brasileiras estão matriculadas no 1º grau. Desse total a esmagadora maioria 30,5 milhões está inscrita nas 200.000 escolas da rede pública mantida pelos estados e municípios. Um pequeno percentual de pouco mais de 10% do total de alunos tem acesso às escolas particulares.

A zona rural de uma maneira em geral é bem mais desassistida. O baixo nível de instrução da população rural reflete na sua baixa capacitação, dificultando a criação de novas alternativas de superação das dificuldades e carências sociais, econômicas e agrícolas. O resultado é uma educação que prepara o jovem para emigrar, pois privilegia e focaliza, apenas, o crescimento urbano-industrial e relaciona o rural ao atraso, isto é, a uma sociabilidade que estaria fadada a extinção. 

A educação básica de qualidade é cada vez mais compreendida como indispensável ao desenvolvimento sustentável. Um indivíduo instruído não só utiliza seu estoque de conhecimentos em benefício próprio, mas também disponibiliza parte do que aprendeu para as pessoas que com ele convivem.

A importância da escolaridade é confirmada, também, quando relacionada ao nível de renda da população. Quem tem maior quantidade de anos de estudo comprovadamente tem melhores rendimentos. A forte relação entre desenvolvimento econômico e os níveis educacionais da população justifica a estratégia da proposta de Desenvolvimento Rural Sustentável em capacitar a população na perspectiva de construir a cidadania, garantindo, entre outros resultados, a inserção da população no mundo do trabalho. 

Necessário que as atividades educativas do meio rural com base na sustentabilidade dos recursos naturais e a preservação dos aspectos culturais das populações estabeleçam novo paradigma exigindo uma mudança fundamental no padrão de ensino investindo na formação e capacitação profissional, em redes de extensão vinculando a assistência técnica e com o sistema de pesquisa agropecuária. 

Para a superação dos problemas no campo educacional da região semi-árida é imprescindível a democratização da educação, tornando-a contextualizada. Essa intervenção é necessária devendo atuar em todas as esferas educacionais: educação popular, educação formal, envolvendo tanto as escolas agrícolas quanto aos níveis técnico, universitário e alfabetização de adulto. 

A escola, além de alfabetizar e transmitir conhecimentos gerais, deve possibilitar no educando a compreensão do meio em que vive, capacitando-o para descobrir formas apropriadas de conviver com a seca. As escolas devem adotar uma pedagogia popular e currículos em consonância com a realidade do semi-árido com ênfase para o resgate e valorização da sabedoria popular. 

Para implementar uma verdadeira política de educação rural é preciso buscar parcerias entre os órgãos governamentais, as estruturas sindicais, as organizações cooperativas, e as diferentes experiências acumuladas por organizações não-governamentais ligadas ao desenvolvimento e educação rural.

 

SAÚDE

 

O Sistema Público de Saúde brasileiro está sucateado, proliferam as clínicas particulares e cada vez mais a saúde se torna um objeto de comercialização e de manipulação política, principalmente épocas eleitorais. As ações de saúde são onerosas, principalmente àquelas voltadas para a medicina curativa. São pequenas as experiências em educação para a saúde preventiva.

A saúde da população depende muito mais de fatores preventivos como acesso a serviços e bens públicos, alimentação suficientes em termos quantitativos e qualitativos e condições de higiene, do que do número de postos de saúde ou leitos hospitalares disponíveis, embora estes sejam imprescindíveis. 

Entretanto, a medicina curativa tem muito pouco a fazer quando a população não tem acesso a água ou a alimentos saudáveis, quando o emprego e a segurança inexistem. De outro lado, a desigual a distribuição da renda, que dificulta o acesso a serviços alternativos, como planos de saúde, para a imensa maioria da população. 

Embora se observe uma redução gradual e progressiva das doenças infecciosas e parasitárias, o cenário epidemiológico brasileiro mostra que as doenças crônico- degenerativas encontram-se em franca ascensão. A mortalidade infantil encontra-se, ainda, em patamares elevados, especialmente, nos bolsões de pobreza.

Um dos maiores benefícios do desenvolvimento sustentável nas regiões mais pobres deveria ser a melhoria da saúde pública. Atualmente, doenças infecciosas comuns e totalmente evitáveis matam milhões de crianças a cada ano no sertão nordestino. 

Medicamentos simples tais como a reidratação em casos de diarréia aguda, que poderiam salvar milhões de crianças, não são divulgadas, favorecendo o uso de medicamentos caros e pouco eficientes. Os cuidados básicos com a saúde pública precisam ser intensificado na região semi-árida.

A população da zona rural do semi-árido é ainda mais prejudicada consumindo água de má qualidade e como a alimentação é deficiente (em quantidade e qualidade), principalmente em vitaminas e minerais, freqüentemente adoecem. 

Alguns estudos apontam as doenças veiculadas pela água como responsáveis por 65% das internações pediátricas na rede pública e por 80% das consultas pedriátricas nessa mesma rede. Estima-se que cada R$ 4,00 investidos em saneamento significam ma economia de R$ 10,00 em internações hospitalares. Vem ocorrendo uma rápida perda dos conhecimentos populares dos remédios e tratamentos caseiros. 

Ações educativas de saúde quando invadem todas as fases do atendimento, promovem espaços de troca de informação, permitindo identificar demandas, escolhas adequadas, além de diminuir a distância comum entre profissionais de saúde e a população.

Algumas medidas devem ser adotadas como a realização de campanhas permanentes de educação para a utilização de água de boa qualidade e para a mudança dos hábitos alimentares. A adoção de uma alimentação saudável e adequada isenta de agrotóxicos, hormônios, aditivos sintéticos no dia a dia das famílias, nas merendas escolares e creches, é uma excelente forma de melhorar o nível nutricional das pessoas e prevenir doenças causadas pela fome. Outro aspecto de importância inquestionável refere-se ao resgate, valorização e cultivo de plantas com valores nutritivos e princípios medicinais. 

Para desenvolver uma proposta de desenvolvimento rural sustentável para a região nordestina é necessário a implementação ações de atenção à saúde da mulher, criança e adolescente. As ações de educação e comunicação para a saúde deverão ser abrangentes enfocando a importância da higiene básica, como o tratamento sanitário dos alimentos e da água, hábitos higiênicos pessoais, e capacitando os Agentes de Saúde. 

Outra medida a ser adotada refere-se a elaboração de perfil epidemiológico das comunidades, incentivando a imunização de todas as crianças mediante vacinação. Para isto, é necessário trabalhar em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde, usando os agentes de saúde para realização de diagnóstico de doenças e orientações básicas domiciliares.

 

MEDECINA ALTERNATIVA


As plantas nativas da região semi-árida podem ser utilizadas pelos sertanejos de diversas formas: alimento, medicinais, ornamentais, madeireiras ou para confecção de artesanatos. Necessário buscar a recuperação e a valoração dos conhecimentos acumulados ao longo do tempo e das tradições fornecendo importante contribuição sobre o uso e conservação dos recursos naturais.

Nas comunidades tradicionais, a utilização das plantas está associada, na maioria das vezes, com sua conservação, uma vez que disso depende a sobrevivência dessas comunidades humanas. Tradicionalmente, o conhecimento sobre o uso de plantas como tratamento de saúde preventiva e curativa é transmitido de forma oral (educação não escolarizada) pelas comunidades e pode estar ameaçado por causa da pressão que estas comunidades sofrem. Muitas plantas da região do semi-árido podem muito bem ser exploradas economicamente e medicinais como babosa, juazeiro.

 

 

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últimas alterações: 2004-09-22



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Alimentação Alternativa

Sustentabilidade Humana está relacionada ao conhecimento e a capacidade dos comunitários transformar o ambiente em que vivem. A alimentação alternativa possibilita o aproveitamento de fontes nutritivas não convencionais, reduzindo assim os efeitos da pobreza rural sobre a saúde. 

O PROASNE promoveu cursos de alimentação alternativa no município de Caraúbas.