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Projeto Água Subterrânea no Nordeste do Brasil

Desenvolvimento Rural Sustentável

Um Guia Prático para as Comunidades do Semi-Árido Nordestino

por 

Roberta Borges de Medeiros Falcão

Ana Paula da Silva Oliveira

 

Parte 5
Sustentabilidade Ambiental 

 

A sobrevivência da espécie humana depende da capacidade de sustentação dos recursos naturais, particularmente da terra e da água. Os recursos do meio ambiente devem ser usados de maneira responsável, a fim de que a produtividade da terra possa crescer e se preservar ao "longo do tempo. As diversas fqrmas de uso da terra e da água devem obedecer ao princípio de que a utilização não pode exceder a capacidade de renovação de tais recursos. 

O desenvolvimento rural sustentável deverá resultar não apenas na melhoria dos indicadores sociais e econômicos, mas também na preservação do meio ambiente. Assim, a questão ambiental deverá estar presente na formulação, implementação e avaliação das ações desenvolvidas. 


RECURSOS HÍDRICOS

 

A água constitui importante elemento para equilibrar o meio ambiente e ofertaruma maior qualidade de vida para a população. A água é um elemento indispensável para todas as regiões e, muito mais ainda, para o semi-árido, dadas as suas limitadas condições sócio-econômicas e climáticas. 

Na maioria das comunidades rurais não existe água encanada, o que obriga os comunitários a consumir água de depósitos barrentos e pequenos açudes sujeitos a contaminação impossibilitando o acesso dos moradores a água de boa qualidade acarretando o aumento da pobreza, das doenças e da fome, problemas que poderiam ser resolvidos com o abastecimento d'água eficiente. 

A água no período das secas é insuficiente e quando acumulada é de má qualidade e não é bem gerenciada. Isso vale tanto para a água de consumo humano como para a destinada à produção agropecuária. No geral, as regiões onde se apresentam as menores precipitações são as que sofrem maiores dificuldades com relação à água de subsolo, devido às formações cristalinas possuidoras de elevados níveis de sais. 

Mesmo nas regiões onde chove mais e o subsolo é rico em água, a população enfrenta dificuldades pela falta de informações, de investimentos públicos adequados e pela elevada evaporação. 

Não há uma preocupação, por parte dos governos, de captar e armazenar a água das chuvas para a utilização nos períodos críticos. A maior parte da população não tem condições de construir seus próprios reservatórios ficando dependentes do carro pipa e vulnerável à exploração e manipulação dos políticos mal intencionados. 

Neste sentido, a população precisa ser esclarecida quanto às maneiras de utilização dos recursos hídricos, valorizando e protegendo os equipamentos e sistemas existentes, estabelecendo, assim, uma nova consciência ambiental. 

A sociedade do semi-árido necessita conhecer a real situação da água, seus níveis de poluição e as diversas maneiras de preservar e recuperar os recursos hídricos para estabelecer uma gestão participativa, descentralizada e em parceria com os órgãos públicos. Para enfrentar este desafio, a educação ambiental toma-se imprescindível para a aquisição de novos valores, pois possibilita a construção de uma sociedade sustentável e democrática comprometida com a elevação da qualidade de vida da população. 

É necessário que o poder público garanta a água para as populações em três níveis: para o consumo das famílias, que deve ser de boa qualidade e em quantidade suficiente para o ano todo e estar na residência. A água comunitária, para as outras necessidades da casa, para os animais e pequenas irrigações; e a água de reserva para os períodos mais longos de estiagem. 

Uso racional da água e reposição da mata ciliar dos rios, açudes, lagos, são, também medidas importante objetivando diminuir a evaporação e a erosão. Criação de comitês de bacias possibilitam às comunidades a participação na elaboração, fiscalização e gestão de planos de aproveitamentos de recursos hídricos. 

Alguns procedimentos deverão ser adotados buscando a preservação e conservação dos mananciais como a promoção de campanhas de conscientização e programas educativos sobre o uso sustentável de água; melhorar a base de informações para a administração sustentável da água; melhorar a capacidade institucional para administrar os mananciais de água doce; fortalecer a capacidade das comunidade de usar os recursos de água de forma sustentável. 

CISTERNAS

 

São dois os principais modelos de cisternas construídas no semi- árido nordestino: as do tipo convencional e as do tipo de placas. A cisterna convencional, de uma forma geral, é um reservatório (tanque), abaixo do nível do solo, onde se conservam as águas de chuva. Ele é o mais encontrado e o mais duradouro. Normalmente é edificado em alvenaria de tijolo e cimento e coberto com laje. 

Já a cisterna de placas, especificamente, é uma construção de baixo custo que utiliza técnicas simples, coberta e semi-enterrada. Seu funcionamento prevê a captação de água da chuva, aproveitando o telhado da casa, escoando através de calhas (bicas) até o reservatório ou tanque. 

Os problemas relacionados a este modelo são decorrentes da falta de orientação quanto ao uso correto da água coletada. Muitas famílias utilizam a água captada da chuva para lavagem de roupa, dessedentar os animais e até irrigar pequenos plantios, acarretando o reduzido nível de suas águas. Quando totalmente esvaziada é utilizada apenas como tanque para armazenamento da água, transportada por carros-pipa ou bombeada de poços localizados nas imediações. Mesmo diante destas condições, têm oferecido um grande beneficio aos seus proprietários ou mesmo às comunidades, em especial nos períodos de seca intensa. 

POÇOS COM DESSALINIZADORES

No Nordeste, os dessalinizadores são, principalmente, de dois tipos: o poço amazonas e o poço tubular. O primeiro tem sido perfurado em ampla escala, especialmente, nas áreas de aluvião, às margens de rios, riachos e açudes, e, por ser de custo reduzido e de fácil construção, é o mais comum no nordeste. 

Normalmente a água destinada ao uso diário e ao consumo animal é originária de um poço localizado na comunidade, porém a água possui uma grande concentração de minerais (água salgada), utilizando um dessalinizador para resolver o problema. Porém, durante o processo, boa parte da água é desperdiçada, resultando numa pequena quantidade d'água, devido à pequena vazão do poço. 

Os dessalinizadores de água, que estão sendo largamente difundidos no nordeste, separam o sal da água através do processo denominado osmose reversa, que consiste em bombear a água forçando- a a passar pelas membranas existentes no dessalinizador. 

Neste processo a uma produção de um volume relativamente significativo de rejeito que corresponde à cerca de 50% do volume de água bruta. O lançamento desse material no meio ambiente, sem cuidados especiais, pode provocar a degradação permanente da área.

Necessário a utilização de medidas mitigadoras, pois os sais podem ser aproveitados para fins pecuários, visto ser a região do semi- árido uma das mais carentes no aspecto da mineralização dos animais. 

Os rejeitos também podem ser usados na piscicultura, principalmente com a criação de tilápias, originárias da Malásia que são extremamente resistentes a ambientes salinos, além do cultivo irrigado com plantas halófilas, a exemplo da Atriplex, que precisam de água com teor de sal elevado para se desenvolverem. 

Neste sentido, deverão ser apoiadas, apenas atividades de dessalinização de águas de poços se sua execução estiver acoplada a projetos de manejo ambiental dos rejeitos salinos e adotar métodos e processos de reutilização das águas. 

CARROS-PIPA

Em algumas comunidades a água para o abastecimento humano provem unicamente através de carros pipas (em média duas vezes por mês) que abastecem cisternas com capacidade para 21 mil litros d'água, todavia, a quantidade não é suficiente para suprir as reais necessidades das localidades. 

AÇUDES

No Nordeste brasileiro existem pequenos, médios e grandes açudes. Os grandes açudes são, via de regra, construídos pelo poder público, com a finalidade de desenvolver atividades de irrigação, piscicultura e abastecimento das populações na região. Esses mananciais, por possuírem grandes volumes acumulados, não correm o risco de exaustão, permitindo uma contenção de volume de água apreciável, capaz de alcançar o período de estio, mesmo com o seu uso continuado. 

Entretanto, os pequenos e médios açudes representam 80% dos corpos hídricos nos estados nordestinos. Esses açudes, por apresentarem formas geométricas variadas, devido à ausência de um prévio planejamento que antecedesse a sua construção, possibilita inevitáveis problemas de dimensionamento, sendo corriqueiro açudes que nunca vieram a sangrar. Esse aspecto traz problemas muito sérios de salinização, pois as águas ficam sujeitas à concentração salina devido ao fenômeno da evaporação intensa. 

A água destinada ao uso diário e ao consumo dos animais, muitas vezes, é originária de um pequeno açude localizado na comunidade, que vive praticamente seco devido à falta de chuvas. O transporte da água é feito através de carroças, lombo de animais e às vezes em latas de água. 

PRINCIPAIS IMPACTOS AO MEIO AMBIENTE NO SEMI-ÁRIDO

A Resolução do CONAMA # 001 de 23/01/86 define Impacto Ambiental como: "Qualquer alteração das propriedades fisicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetem: (I) a saúde, a segurança e o bem-estar da população; (II) as atividades sociais e econômicas; (III) a biota; (IV) as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; (V) a qualidade dos recursos ambientais". 

Desmatamento
A vegetação desempenha um importante papel no equilíbrio das águas do solo, pois permite que grande parte da chuva infiltre através das raÍzes ou pelo escorrimento dos troncos chegando ao subsolo. Mesmo a Iserrapilheira (camada orgânica resultante da queda dos ramos e das cascas das árvores depositadas sobre o solo) desempenha uma função primordial na manutenção das condições ideais para o processo de infiltração da água. 

Sem cobertura vegetal não haverá retenção das águas e, conseqüentemente, não haverá lençol freático o que irá comprometer diretamente a estabilidade dos fluxos dos rios superficiais e o abastecimento de água para a agricultura, indústrias e residências. São as águas subterrâneas que alimentam os cursos d'água de superficie, os rios visíveis, no período da estiagem. Todavia, sua existência e potencialidade dependem diretamente da estrutura dos solos e da extensão das áreas com vegetação. 

A floresta nativa, incluindo a mata ciliar (floresta que ocorre nas margens dos cursos d'água), constitui o tipo de vegetação que mais filtra a água impedindo a chegada de sedimentos e agrotóxicos, diminuindo consideravelmente a turbidez da mesma, possibilitando ótimas considerações de luz para o processo fotossintetizante das algas produtoras de oxigênio, equilibrando a temperatura e a manutenção da vida aquática. 

Quando a mata ciliar é retirada, o solo das margens de um determinado rio, lago ou açude fica desprotegido (erosão) exposto às chuvas e aos ventos Gá não possuem mais as raÍzes fixadoras) que carregam os sedimentos (areia) e a matéria encontrados no local das margens para o fundo do rio. 

Solos arenosos, uma vez sujeitos a fortes chuvas possuem alta facilidade de desgastes erosivos, e se ocorrer de forma continuada tendem a perder a fertilidade natural em função da diminuição do teor de argila, da concentração de matéria orgânica e da umidade. 

Quando o volume de terra carregado pelas enxurradas é maior do que a quantidade que os cursos d'água podem suportar; as partículas de solo se acumulam e, com o tempo, acabam obstruindo o caminho natural das águas, provocando o chamado assoreamento. O assoreamento é muito prejudicial a um rio, pois aumenta a largura e diminui a sua profundidade, reduzindo sua capacidade de armazenar água. A água também fica turva.

Além da sua função protetora, a mata ciliar é importante porque dá abrigo a diversos animais beneficiando a existência de fauna típica. Ao alimentarem-se das frutas das árvores, muitos animais acabam transportando e espalhando sementes, fazendo com que as plantas se proliferem. Essa mútua dependência não pode ser quebrada, as plantas precisam dos animais para sua perpetuação e os animais precisam das plantas para sua sobrevivência. 

A mata ciliar possui uma vegetação muito rica e diversificada. Seu solo é rico em matéria orgânica, enriquecendo as várzeas. O clima também é favorecido tomando-se mais ameno. O Código Florestal define em seu artigo 20 que as florestas e demais formas de vegetação natural são consideradas de preservação penhanente, quando situadas ao longo dos rios, ao redor de lagoas, lagos ou reservatórios de água, naturais ou artificiais. A área de plantio deve considerar, no mínimo, a preservação permanente estabelecida por lei, ou seja, 30 m para cada lado do rio. 

Existem várias maneiras de se recuperar a mata ciliar. A mais fácil e barata é deixar a natureza agir sozinha. Se a terra não estiver muito degradada e se nas proximidades existirem remanescentes florestais que possam fornecer sementes, em pouco tempo se transformará numa pequena floresta. 

No caso do replantio da área é recomendado que seja feita com espécies arbóreas nativas, diversificando ao máximo as espécies plantadas, pois o objetivo é chegar o mais próximo possível do ambiente natural, mantendo com isso a continuidade da flora e da fauna da região. O cultivo em curvas de nível, ou "cortando as águas", também ajuda no combate à erosão, evitando a formação de corredeiras ou valas que estragam os solos. 

A intervenção nas áreas de preservação permanente só é permitida se comprovada a necessidade de execução de obras e atividades de utilidade pública ou interesse social (ex: construção de pontes, portos, estradas e etc.), porém exige-se Licença Ambiental e Estudo dos Impactos Ambientais. 

A perda da cobertura florestal, a erosão do solo, o assoreamento de cursos de água e outras fontes de água, naturais ou construídas, podem deixar de ocorrer ou ter os seus efeitos consideravelmente minimizados, mediante o manejo florestal das áreas de caatinga. 

 

Manejo Florestal da Caatinga
A caatinga, vegetação nativa do Semi-Árido Nordestino caracterizado por uma vegetação arbórea-arbustiva adaptada ao clima da região apresentando muitos espinhos como maneira de proteger a umidade das plantas. Desta maneira, estão presente muitos cactos e bromélias. A caatinga tem grande importância como fornecedora de produtos madeireiros e não madeireiros, além de servir para a manutenção da pecuária extensiva. O manejo oferece maiores vantagens, inclusive, econômicas quando comparado ao reflorestamento.

A retirada de sua vegetação nativa poderá criar sérios prejuízos para o ecossistema, necessitando de uso racional e sustentável tanto para a sua preservação, como para uma utilização que não provoque desequilíbrio ambiental. Em outras palavras, é necessário fazer o Manejo Florestal Sustentável. Para podermos utilizar bem a caatinga precisamos fazer um inventário das árvores existentes, a quantidade, o tamanho e o volume disponível para definir o tipo de manejo mais adequado para cada caso. 

Existem técnicas de manejo florestal como o corte raso, o corte seletivo e o corte em faixas alternadas. No primeiro caso, cortam-se todas as árvores e arbusto, porém deixam espalhados pela área os restos da exploração como galhos, folhas e raízes. Já no corte seletivo, cortam- se todas as árvores a partir de um certo diâmetro e conservam-se as outras. O manejo seletivo pode-se, também, por espécie. Neste caso, tem como objetivo a produção de determinadas espécies florestais. As vantagens deste tipo de corte é que favorecem às espécies plantadas, controlando-as. No caso do corte de faixas alternadas, cortam-se determinadas faixas e outras não, alternadamente. Este tipo de corte possibilita o controle de erosão, a preservação da fauna e a manutenção do banco de sementes.

 

Queimadas
A queimada é uma técnica rudimentar e tradicional utilizada pelos agricultores com o objetivo de controlar as pragas, limpar as áreas para o plantio, renovar pastagens e fazer colheitas. Inicialmente, a pastagem que rebrota possui melhor aparência e força que a nativa. Com o passar dos anos, esta prática provoca degradação no aspecto fisico, químico e biológico do solo. 

Outros aspectos negativos são ainda observados como a perda da biodiversidade e da dinâmica dos ecossistemas, erosão do solo e poluição do ar. A queimada descontrolada pode dar origem a incêndios com conseqüências para o patrimônio público e privado, destruindo redes de eletricidade, causando acidentes fatais nas estradas, prejuízos a vizinhos e as reservas ecológicas. 

Quem queima está desobedecendo ao Código Florestal (Lei No 4.771/65) e a Lei de Crimes Ambientais (Lei No 9.605/98). Todavia, apenas a fiscalização e aplicação de multas, apesar de necessárias, não são suficientes. Necessário que haja campanhas educativas para a utilização do uso do fogo apenas nos casos imprescindíveis e a maneira correta de fazê-lo, e acima de tudo é preciso oferecer alternativas ao uso tradicional da queimada para os agricultores. Tecnologias agrícolas é que não faltam, bastando apenas difundi-Ias entre os produtores. 

A uréia é um produto que misturado ao sal garante ao gado a proteína de que o animal precisa e não encontra na pastagem seca, não havendo, assim, a necessidade de queimar o pasto visando a rebrotagem. É uma técnica simples e de baixo custo, necessitando, apenas, de cuidados com a mistura, pois a uréia é tóxica para os animais, precisando misturar bem os dois ingredientes. 

Outra opção é o "Banco de Proteínas" que consiste em um sistema integrado onde uma porção da área da pastagem nativa ou cultivada é reservada para as leguminosas forrageiras de alto valor protéico como a leucena, dentre outras. Por último, a introdução de cobertura verde como as leguminosas ou cobertura morta (restos de culturas não queimadas) e a compostagem orgânica que abreviam o tempo de recuperação da capoeira e aumenta o volume da biomassa. 

 

Agrotóxico

A agricultura é a atividade econômica que mais depende dos recursos naturais e a que mais provoca a degradação dos mesmos, com a poluição dos solos, a salinização das terras irrigadas, e a degradação das águas pela lixiviação dos fertilizantes e pesticidas. 

A ação dos agrotóxicos já foi comparada a de um genocídio tamanha as conseqüências negativas que provoca na saúde dos seres humanos, pois, quando não mata provoca irritação, depressão, alteração no sistema nervoso central, impotência e má-formação de fetos. Sua manifestação muitas vezes é lenta, manifestando-se após muito tempo. 

Atualmente, os agrotóxicos são largamente utilizados na agricultura convencional, como uma solução a curto prazo para a proliferação de pragas e doenças. O Brasil é um dos cinco maiores consumidores de agrotóxico do mundo, superando em sete vezes a média mundial de 0,5 kg/hab. de veneno. 

Lançados em excesso sobre plantações, os agrotóxicos poluem os alimentos e o solo. Com as chuvas, estes produtos químicos são levados para lagoas e rios contaminando-os, e causando danos à saúde da população ribeirinha. Isto, sem falar no consumidor que acaba tendo que ingerir um alimento contaminado. Os agrotóxicos também perco Iam no solo atingindo as águas subterrâneas. 

O uso de agrotóxicos acarreta um desequilíbrio metabólico nas plantas que as fragilizam, tomando-as suscetíveis aos ataques de insetos. Contrariamente, se o solo for bem manejado e conservado, adubado e consorciado com outras culturas produzirá um equilíbrio no metabolismo da agricultura, tomando as plantas mais resistentes ao ataque de doenças. 

O manuseio inadequado é um dos maiores responsáveis por acidente de trabalho na zona rural. A grande maioria dos agricultores não usa qualquer proteção no preparo dos produtos, nem mesmo quando vão aplicá-los na lavoura. 

 

Residuos Sólidos (Lixo)
O trabalho de coleta de lixo na área rural brasileira é extremamente insuficiente atingindo apenas 13,3% dos domicílios brasileiros (IBGE, 2000). O problema do lixo rural é também pouco discutido e estudado sendo dedicado poucos recursos específicos para a busca de estratégias para mitigação do problema. A realidade mostra que o lixo rural tem coleta cara decorrente, dentre outros fatores, a grande distância'entre a localidade e o centro urbano. 

A escolha das áreas para deposição do lixo nas imediações das comunidades geralmente é feita de maneira aleatória ou baseada apenas no custo do transporte. O lixo é, então, depositado sob a forma de pilhas ou espalhado, constituindo o famoso "lixão", sem que nenhum tipo de tratamento seja executado. 

O lançamento do lixo a céu aberto em terreno baldio próximos às residências é um método inconveniente e primitivo sob os pontos de vista sanitário e ambiental porque os pontos de lançamento constituem focos de moscas com todas as conseqüências diretas e indiretas. 

Estes vetores têm sido responsabilizados pela transmissão de várias doenças como diarréias infecciosas, amebíase, helmitoses e outras parasitoses. Serve também de criadouro e esconderijo de ratos, animais esses envolvidos na transmissão da peste bubônica. 

O lixo orgânico, no processo de decomposição, gera um líquido escuro, turvo e malcheiroso altamente poluente denominado de chorume (ele é dez vezes mais poluente que o esgoto doméstico). Este líquido tem a capacidade de dissolver tintas, resinas e outras substâncias químicas de alta toxidade contaminando o solo, impedindo o desenvolvimento das plantas. 

No período chuvoso, em que o lixo se mistura com a água de chuva, o chorume encontra maior facilidade de infiltração no solo, contaminando os mananciais subterrâneos e de superficie (rios, lagos, córregos). O chorume pode permanecer por décadas no solo mesmo após o encerramento do lixão, exigindo ações corretivas durante vários anos com o objetivo de remediar a contaminação. 

O enterramento do lixo é outra prática bastante utilizada pelos comunitários do semi-árido nordestino, difere do anterior pelo fato do lixo ser recoberto por camada de terra, o que é melhor sob o ponto de vista estético, mas sob o ponto de vista sanitário, deixa muito a desejar; pois não contando com controle técnico, os pontos de aterro continuam a ser focos de moscas e criadouros de ratos. 

As vantagens econômicas da solução adequada para o problema do lixo podem ser contempladas como resultantes da solução dos problemas de ordem sanitária, qual seja, o aumento da vida média efetiva do indivíduo, seja pela redução da mortalidade, seja pela redução de doenças. 

DESERTIFICAÇÃO: A MAIOR CONSEQÜÊNCIA DOS IMPACTOS AMBIENTAIS

 

As formas de exploração dos recursos naturais têm desencadeado uma forte degradação ambiental decorrente dos desmatamentos, queimadas, poluição das águas, salinização dos solos e água, assoreamento dos rios e riachos, extinção de espécies animais e vegetais, culminando no processo de desertificação. Isso tem agravado os efeitos do clima na região, interferindo nos níveis de produção e na qualidade de vida das populações. 

Desertificação diferencia-se de desertização. Desertização é um processo natural que independe da ação antrópica sendo ecologicámente um fato acabado. Desertificação, todavia, é um fenômeno que tem um componente muito forte que desencadeia seu processo que é o homem e que pode ou não se tomar deserto. No caso brasileiro, o que existem são processos de desertificação e não ainda desertos. 

AAgenda 21, o principal documento gerado pela Conferência do Rio em 1992, definiu desertificação como sendo ã degradação da terra nas regiões áridas, semi-áridas, sub-áridas e sub-úmidas secas, resultantes de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas. 

Em relação ao Nordeste, além da seca em pelo menos oito Estados, o processo de desertificação já atingiu mais de 55% do território, ou seja, uma mancha quase do tamanho do Estado do Sergipe. A área corresponde a 18.000' quilômetros quadrados completamente esturricados. Uma terra pobre e arenosa, onde o cultivo tomou-se inviável mesmo com a irrigação e estima-se que outros 180 000 quilômetros quadrados estão seguindo o mesmo caminho. 

Os processos de desertificação são muitos complexos e envolve dimensões não apenas de conhecimento técnico, mas, econômicas, sociais e culturais. Os impactos ambientais da desertificação resultam na eliminação da biodiversidade (fauna e flora), da redução da disponibilidade de recursos hídricos mediante o assoreamento de rios e reservatórios, e da perda fisica e química dos solos, favorecendo a redução da produtividade da agricu1.tura. 

O semi-árido brasileiro que durante séculos resistiu aos longos períodos de estiagem, não está suportando ao avanço da desertificação. Aliás, comparativamente com a terrível seca, o fenômeno da desertificação é muito mais cruel. A criação da pecuária extensiva (bois e bodes) como atualmente é praticada tem arrasado o solo nordestino. Os animais quando comem a vegetação que sobrevive à estiagem, pisoteiam mudas e gramíneas, compactando o solo. 

O desmatamento indiscriminado da caatinga contribui fortemente para o desequilíbrio ambiental, inexistindo qualquer fiscalização na retirada da lenha que vão parar nos fogões das famílias e nos formos de cerâmica e padarias. As queimadas impedem a germinação espontânea das plantas nativas, maior escoamento superficial dos recursos hídricos, dificultando uma maior infiltração no lençol freático. 

Todos estes fatores reduzem a capacidade produtiva da terra, diminuindo a produtividade agrícola e, portanto, impactando as populações, diminuindo a qualidade de vida, elevando a mortalidade infantil e reduzindo a expectativa de vida da população. 

Os prejuízos sociais refletem nas unidades familiares. As migrações desestruturam as famílias e impactam as zonas urbanas, que quase sempre não estão em condições de oferecer serviços ao elevado contingente populacional que para lá se deslocam. A população afetada apresenta alta vulnerabilidade, já que estão entre os mais pobres da região, e com índices de qualidade de vida muito abaixo da média nacional. 


EDUCAÇÃO AMBIENTAL


Por intermédio da educação e da informação, é possível disseminar na mente e no espírito coletivo das comunidades uma consciência mais esclarecida sensibilizando-as e incentivando à mudança nos relacionamentos entre atores e classes sociais, e entre a sociedade e a natureza. 

A Educação Ambiental, hoje, deve ser entendida no sentido da educação para a cidadania. Através dela são trabalhadas conhecimentos que possam elaborar uma nova visão de mundo capaz de ditecionar ações no sentido da sustentabilidade. 

Para cumprir com êxito esta meta, a Educação Ambiental tem como espaços de atuação não só o espaço escolar formal, mas, também, os espaços ditos informais como sindicatos, associações comunitárias e de trabalhadores rurais, cooperativas e comunidades em geral. Somente desta maneira a conscientização e sensibilização podem acontecer com uma maior amplitude. 

A Educação Ambiental tem sido colocada como uma importante ferramenta para o processo de mudança de comportamento bem como eficaz para a formação de uma consciência pública crítica e participativa. 

Os princípios da educação ambiental para sociedades sustentáveis definem a educação como direito de todos (somos todos aprendizes e educadores) devendo ter como base o pensamento crítico, inovador e transformador da sociedade e tem o propósito de rOnDar cidadãos com consciência local e planetária. 

A Educação Ambiental deve envolver uma perspectiva holística, enfocando a relação entre o ser humano, a natureza e o universo de ronDa interdisciplinar, estimulando a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de estratégias democráticas, bem como, tratar as questões globais críticas, suas causas e inter-relações em uma perspectiva sistêmica, em seu contexto social e histórico. 

Nas escolas, é necessário desenvolver uma metodologia participativa e interativa tanto em relação aos professores quanto aos alunos. Neste sentido, a responsabilidade em transmitir a importância dos recursos naturais e a necessidade da preservação fica com os professores que mediante uma capacitação prévia assumirão seus papéis na construção do processo de conhecimento/aprendizagem. 

Essa forma de descentralização é necessária, pois a escola é um verdadeiro universo com suas particularidades, conflitos e limitações, situada em um espaço geográfico específico (bairro, comunidade), onde somente os professores e alunos conhecem-no em profundidade. 

A abordagem deverá ser interdisciplinar, contínua e permanente, dentro ou fora da escola, abrangente, envolvendo pessoas ou grupos sociais na prevenção e busca de soluções para os problemas enfrentados pela comunidade. 

Os professores poderão também desenvolver o tema com mais propriedade, elegendo os aspectos e conteúdos importantes vinculados à realidade local para que o aluno possa entender a problemática da água de forma contextualizada. 

A escolha de técnicas adequadas para a realização de atividades de educação ambiental é importantíssima, devendo levar em consideração os objetivos, tipo, tamanho do grupo, espaço, tempo e recursos financeiros e humanos. Podem ser usadas técnicas da discussão (permite troca de idéias, informações, opiniões), sociodrama (permite a compreensão vivencial de situações diversas), psicossocial (facilitam o pensamento crítico). 

A linguagem deverá ser diferente para grupos diferentes: crianças, adultos, etc. Algumas técnicas exigem habilidade manual, verbal ou ambas, outras exigem conhecimentos mais profundos, experiência. Portanto, deve-se identificar o problema ambiental sobre o qual se quer atuar para daí utilizar a técnica adequada. Para pequenos grupos pode-se usar o debate dirigido, troca de idéias, musicoterapia, etc. Para grandes grupos seminários, cursos, exposições, painéis, mesas-redondas, oficinas, etc. 

Para que haja um processo de educação eficiente é necessário produzir e divulgar material didático destinado a apoiar as atividades de educação ambiental nas escolas oficiais, institucionalizando e realizando cursos de formação e capacitação de recursos humanos, assim como campanhas e eventos para viabilizar a implementação de educação ambiental. 

A utilização da mídia (imprensa, rádio, televisão, teatro, dança, música, literatura folclórica) e meios de comunicação audiovisual e cartazes, pois possibilita uma ampla divulgação. A educação ambiental deve fazer parte integrante da educação formal em todos os níveis, capacitando os professores da rede oficial de ensino através de oficinas e seminários. 


PROGRAMAS RADIOFÔNICOS


Apesar da evolução dos meios de comunicação em massa, a maioria da população do semi-árido nordestino não usufrui destes beneficios decorrentes do baixo nível econômico. Desta maneira, o rádio constitui-se no principal meio de acesso às informações cumprindo em um importante papel no processo educativo. 

Considerando a relevância da comunicação de massa é necessário que as informações ambientais sejam pertinentes, corretas, garantindo o acesso ao segmento-alvo da população, rechaçando a linguagem excessivamente técnica. 

Os programas radiofônicos deverão buscar retratar a realidade do semi-árido brasileiro de forma bastante criativa, utilizando o linguajar típico do homem rural a fim de haver uma maior identificação com os ouvintes. Os temas a serem abordados poderão os mais variados possíveis onde os sertanejos possam aprender como lidar com a caatinga, sem destruí-Ia, para seu beneficio. 

As instituições governamentais e não governamentais devem ocupar espaço nos meios de comunicação com programas educativos sobre produção, organização e compreensão do meio ambiente. É necessário, ainda, criar outros mecanismos que levem a população a se educar para o aproveitamento racional dos recursos naturais e a superação das dificuldades próprias da região, favorecendo, assim, a fixação das famílias na terra.

 

 

Considerações Finais

 


O Semi-Arido brasileiro é uma região rica com beleza natural, com grande potencial econômico, poesia, povo sábio, resistente. Mas, a sobrevivência na região encontra dificuldades por causa. da complexidade dos problemas gerados, principalmente, pela incompreensão das condições ambientais e pelas estruturas políticas que conduzem à exploração e dominação da população. 

As saídas para esses entraves passam por um processo educativo com pedagogia popular e participativa que surja da vontade popular, de suas necessidades, descobertas e experiências, valorizando seus conhecimentos e tradições e introduzindo tecnologias simples, baratas, eficientes e apropriadas à região. O desenvolvimento rural não pode ser decretado, apenas construído. 

O desenvolvimento não é dependente da otimização dos recursos e fatores de produção, mas, também de fazer emergir e possibilitar recursos e capacidades escondidas, dispersas ou não utilizadas, o que quer dizer não existe regiões condenadas, mas, apenas regiões sem projetos bem fundamentados e congruentes com a sua realidade. 

O desenvolvimento rural sustentável pode, sim, reduzir as desigualdades sociais, apesar da pobreza da região, quando construído a partir das experiências dos atores interessados e participantes ativos do processo. 

Todavia, não existe uma proposta de desenvolvimento rural sustentável pronta e acabada em virtude de que cada localidade é única, singular e que depende das situações particulares, da maneira como é estruturada a produção e as formas sociais e as maneiras em cada comunidade respondem aos impactos sociais, econômicos e ambientais. Depende, também, de como são articuladas e organizadas as relações de poder entre a população e os poderes públicos.

 

 

Referências Bibliográficas

 


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últimas alterações: 2004-09-21



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Oficina de Coleta Seletiva de Lixo e a Reciclagem em Mirandas

O PROASNE promoveu a educação ambiental em todas as escolas públicas do Município de Caraúbas, realizando encontros de educação ambiental com os professores.  Durante dois meses, os professores realizaram dentro e fora das salas de aula atividades sobre as temáticas água e lixo.